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Varejistas entram na era dos dados, e o crédito se torna peça-chave dessa transformação

Publicado 16/06/2026 | Atualizado 01/07/2026
5 min de leitura
DM
Varejistas entram na era dos dados

Artigo por Carlos Barbieri*

O varejo supermercadista brasileiro vive um momento de inflexão. O volume de vendas encerrou o ano de 2025 com uma alta de 1,6% em relação a 2024, segundo o IBGE, o que foi possível mesmo com margens apertadas, forte concorrência e um consumidor cada vez mais sensível ao preço. Além disso, o mercado tem como desafio a digitalização do consumo, a maior penetração de meios de pagamento eletrônicos e o avanço do crédito no varejo, o que cria, ao mesmo tempo, uma camada adicional de complexidade e uma oportunidade estratégica: o uso intensivo de dados.

A combinação de Data Lake – um repositório que armazena grandes volumes de dados, com capacidade de centralizar informações de vendas, estoque, pagamentos e comportamento do consumidor em um único ambiente –  e Inteligência Artificial (IA) surge como uma solução para a redesenhar a lógica operacional do setor. Mais do que uma evolução tecnológica, trata-se de uma mudança estrutural na forma como o varejo entende seu negócio.

A digitalização ampliou exponencialmente a geração de dados. Cada compra registrada, cada item movimentado no estoque e cada pagamento realizado com cartão carregam informações valiosas sobre comportamento de consumo. De acordo com um relatório do Banco Central, o uso de meios eletrônicos como cartões e Pix cresce de forma consistente no país, aumentando o volume e a granularidade dos dados disponíveis para análise.

Quando integradas, essas informações deixam de ser apenas registros operacionais e passam a orientar decisões estratégicas. Na prática, isso se traduz em maior precisão na gestão de estoques, redução de perdas, campanhas promocionais mais eficientes e uma leitura mais refinada das preferências do consumidor.

Além disso, há um vetor dessa transformação que ganha relevância crescente: o crédito. Dados do Banco Central mostram que o crédito para as famílias continua desempenhando papel relevante na sustentação do consumo no país, com crescimento relevante nos últimos anos, especialmente nas modalidades ligadas ao varejo. Assim, o crédito deixa de ser apenas um meio de pagamento e passa a funcionar como ferramenta estratégica de relacionamento e fidelização, ao se integrar dados de consumo com histórico de pagamento e perfil do cliente.

A consolidação dessas informações em um Data Lake permite desenvolver modelos de concessão de crédito mais sofisticados, capazes de combinar precisão na análise de risco com uma visão mais ampla do perfil do consumidor. Isso traz maior eficiência operacional e pode gerar um ciclo virtuoso de ganhos: maior satisfação e fidelização dos clientes, aumento na recorrência de compras, alta na rentabilidade, etc.

É nesse ponto que empresas especializadas em soluções financeiras para o varejo assumem um papel mais relevante. Ao operar cartões private label e plataformas de crédito, essas instituições passam a atuar também como hubs de inteligência, ajudando varejistas a compreender melhor o comportamento de seus clientes e a estruturar ofertas mais eficientes.

O impacto é direto. Modelos de inteligência artificial permitem antecipar padrões de compra, personalizar campanhas com maior assertividade e identificar oportunidades de fidelização. Ao mesmo tempo, a análise de dados melhora a capacidade de avaliação de risco, contribuindo para a redução da inadimplência e para a ampliação do acesso ao crédito — especialmente entre consumidores com menor histórico bancárioquando acompanhados de governança adequada e critérios transparentes, tendência amplamente discutida em relatórios do Banco Central e na agenda de inclusão financeira da autoridade monetária.

Apesar dos avanços tecnológicos, o principal desafio dessa transformação continua sendo a execução. Desenvolver modelos de inteligência artificial é apenas parte do processo. O verdadeiro ganho está em colocá-los em operação de forma consistente, integrados aos sistemas existentes e alinhados às rotinas das equipes de negócio. Muitas empresas conseguem desenvolver pilotos de IA. Poucas conseguem integrar essas soluções ao dia a dia da operação e capturar valor em escala.

Há também riscos importantes. Um dos mais comuns é a criação de grandes repositórios de dados sem estratégia clara — o chamado data swamp. Sem governança, propósito definido e responsabilidade sobre os dados, o que deveria ser um ativo estratégico pode rapidamente se transformar em um passivo operacional.

No fim, a transformação em curso no varejo supermercadista não se resume à adoção de novas tecnologias. Trata-se de uma mudança na forma de competir. Em um setor onde os ganhos marginais têm impacto direto no resultado, a capacidade de transformar dados em inteligência acionável — seja para vender melhor, operar com mais eficiência ou conceder crédito com mais precisão — tende a definir os líderes da próxima década. E, nesse novo cenário, a convergência entre varejo e serviços financeiros deixa de ser complementar e passa a ser central para sustentar o crescimento.

*Carlos Barbieri é gerente de Dados da DM, grupo de serviços financeiros especializado em gestão de crédito e soluções financeiras para o varejo.

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